Ampliação de Aeroporto de Ribeirão Preto não decola

Três anos após anúncio da ampliação da pista, nada ainda foi feito; Ciesp estima que prejuízos podem ser de R$ 1 bilhão
 
 
Era julho de 2011 quando o governador Geraldo Alckmin (PSDB) anunciou que a pista do Aeroporto Leite Lopes, em Ribeirão Preto, seria ampliada. Passados quase três anos, a Secretaria de Avião Civil (SAC) informou que as intervenções estão, ainda, em fase de projeto: os quatro primeiros não foram aceitos e os técnicos estão elaborando um quinto cenário.

A pista atual do Leite Lopes impede a operação de aeronaves maiores, que fazem rotas internacionais e transporte de cargas. Vale ressaltar que Ribeirão Preto é cidade-base da Copa do Mundo e, desde 9 de junho, abriga a delegação da seleção da França, turistas e jornalistas. Na prática, isso significa que o aeroporto já poderia estar recebendo voos internacionais. Estima-se que o prejuízo seja de R$ 1 bilhão por ano.

Pouco antes do início da Copa, em entrevista a Reuters, o ex-atacante Ronaldo Fenômeno, integrante do Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo, disse estar com “vergonha”, porque inúmeras obras de infraestrutura não foram feitas.

O Leite Lopes é um dos 19 aeroportos do Estado de São Paulo contemplados no Programa de Incentivo aos Aeroportos Regionais, do governo federal. Segundo informou a SAC, os técnicos ainda estão desenvolvendo o projeto de ampliação.

“Com base no Estudo de Viabilidade Técnica (EVT), que verifica questões ambientais e legais para a expansão e melhoria, a empresa projetista enviou quatro cenários de mudanças que poderiam ser feitas no local. A SAC, no entanto, solicitou uma quinta opção”, informou a assessoria.

“Sendo assim, ainda não é possível informar valores, estabelecer datas e detalhar as mudanças que serão feitas no aeroporto de Ribeirão Preto. Essas questões serão definidas nas próximas fases do programa. Após a escolha do cenário, a SAC elabora o estudo preliminar e o anteprojeto”, finalizou a SAC.

Mesmo a SAC dizendo que ainda não sabe quanto vai custar o ‘novo’ Leite Lopes, o Daesp (Departamento Aeroviário do Estado de São Paulo), operador do aeroporto, estima que as intervenções vão custar R$ 413 milhões – R$ 348 milhões para o Governo Federal, R$ 40 milhões para o Estado e R$ 25 milhões para a prefeitura.

Prejuízo

Ribeirão Preto aguarda, desde 2003, que o terminal de cargas internacional, saia do papel. De acordo com o diretório local da Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), o prejuízo na geração de riqueza chega a R$ 1 bilhão por ano. Ou seja, a perda total pode superar a casa dos R$ 10 bilhões – valor equivalente a cinco orçamentos municipais.

“Acreditamos que Ribeirão Preto poderia ficar com 2% do volume de importações e exportações de cargas do Estado de São Paulo. Esse montante corresponde a R$ 1 bilhão por ano”, explicou Guilherme Feitosa, diretor regional da Ciesp e Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

Segundo ele, algumas empresas têm interesse em investir na região de Ribeirão Preto, mas estão aguardando um aeroporto internacional de cargas para facilitar a logística do transporte. “Recebemos consultas, mas o aeroporto inviabiliza o projeto”, explicou Feitosa.

O diretor diz acompanhar a novela sobre as obras no Leite Lopes. “Realizamos um evento em 2013 para debater essa situação e vimos que a demora faz Ribeirão Preto perder muito”, finalizou.

O evento a que Feitosa se referiu foi um seminário de logística e comércio exterior, realizado em novembro de 2013. Entre os palestrantes estiveram o ex-presidente da TAM e ex-diretor técnico da Gol, David Barioni, e Josmar Cappa, economista, professor e pós-doutor pelo Instituto de Geociências da Unicamp.

Em março de 2014 foi a vez de representantes da Santa Helena, empresa do ramo de amendoins e derivados, ir à prefeitura pedir informações sobre a internacionalização do Leite Lopes.

'Novo' Leite Lopes

A ampliação da pista do Leite Lopes vai provocar inúmeras alterações na estrutura do aeroporto. Segundo o Daesp, serão ampliados o terminal de passageiros (de 4 mil m² para 30 mil m²), o pátio de aeronaves e a área de taxiamento.

Também está prevista a ampliação da pista de 1.800 metros para 2.100 metros. Para tal, a avenida Thomas Alberto Whatelly vai passar em baixo da pista e construção de um túnel.

Em julho de 2012, quando o Daesp divulgou detalhes da ampliação o valor era R$ 170,6 milhões: R$ 144,8 milhões do Estado e R$ 25,8 milhões da prefeitura. O valor atual, de R$ 413 milhões, é 140% superior.

O primeiro reajuste, porém, foi anunciado em novembro de 2013, devido à necessidade da construção do túnel na avenida Thomaz Alberto Whatelly. Na época, o valor passou para R$ 307 milhões, sendo que R$ 25,8 milhões seriam a contrapartida da prefeitura de Ribeirão Preto.
 
Renato Lopes/Especial
Terminal internacional de cargas está praticamente pronto após 11 anos
Terminal

Após 11 anos, o terminal de cargas do Aeroporto Leite Lopes, em Ribeirão Preto, está praticamente pronto. A Tead Brasil, vencedora da licitação, iniciou a obra no ano passado e, em poucos meses, ergueu o prédio.

Ocorre que, sem a ampliação da pista e a implantação de um posto da Polícia Federal, a operação do terminal de cargas internacional fica comprometida. A reportagem entrou em contato com Rubel Thomaz, diretor da Tead, mas ele informou que não quer se manifestar no momento.

A novela da construção do terminal envolveu até uma briga da Tead com o Daesp, por causa de atrasos. Em 2012, o órgão estadual emitiu uma nota garantindo que “tomaria as medidas cabíveis, caso a empresa não respeitasse o prazo”.

Promessa

No final de 2012 a presidente Dilma Rousseff anunciou investimentos de R$ 7,3 bilhões na expansão da aviação regional. A intenção do Programa de Investimentos em Logística (PIL) é melhorar serviços e infraestrutura aeroportuária.

A divisão dos investimentos é a seguinte: R$ 1,7 bilhão em 67 aeroportos na região Norte; R$ 2,1 bilhões em 64 aeroportos do Nordeste; R$ 924 milhões em 31 aeroportos no Centro-Oeste; R$ 1,6 bilhão em 65 aeroportos no Sudeste; e R$ 994 milhões em 43 aeroportos no Sul.

Segundo a Secretaria de Aviação Nacional, o aeroporto de Ribeirão foi visitado por técnicos, que fizeram uma avaliação preliminar, em janeiro.
 
Matheus Urenha/A Cidade
Mudança na pista exigiu retirada de 260 famílias que moravam em barracos, na área de ampliação
Licença ambiental

Outro entrave para a ampliação da pista do Aeroporto Leite Lopes é a licença ambiental, que depende da Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental). O órgão está propondo um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) e o documento está em análise na Procuradoria Geral do Estado (PGE) e no Daesp.

“Falta apenas a assinatura de um termo de ajustamento entre a Cetesb, Daesp e PGE, para que possa ser emitida a Licença de Operação”, informou a assessoria da Cetesb. O órgão, que não teve expediente na sexta-feira, prometeu novas informações para segunda-feira.

O Daesp, por meio da assessoria, informou “que aguarda a liberação dos investimentos anunciados pelo Governo Federal através do PIL [Programa de Investimentos em Logística]”. O investimento foi anunciado em dezembro de 2012 através do Programa de Incentivo aos Aeroportos Regionais. Além do Leite Lopes, outros 18 aeroportos paulistas foram contemplados.

O Ministério Público Estadual, em Ribeirão Preto, tem um termo de ajustamento de conduta (TAC) que proíbe mudanças na pista do Leite Lopes. O documento foi assinado em 2008 pelo Daesp e pelo prefeito da época (Welson Gasparini).

O promotor da Habitação e Urbanismo, Antonio Alberto Machado, já afirmou várias vezes que é a favor da construção de um novo aeroporto em outro local. “Como não há obra, não temos o que fazer no momento. Mas se a obra começar vamos tomar providências”, disse.

A prefeitura de Ribeirão Preto retirou 260 famílias da área que será usada na ampliação da pista do Leite Lopes.

Todos os barracos compõem a área diretamente afetada (ADA) pela expansão do aeroporto, segundo o estudo da curva de ruído.

De acordo com a prefeitura, as famílias removidas foram colocadas em conjuntos habitacionais atendidos pelo programa “Minha Casa, Minha Vida”.

Movimento

Gustavo Cerni/Infográficos
 
O Aeroporto Leite Lopes registrou a maior movimentação de passageiros e cargas do ano em maio. Segundo levantamento do Daesp, foi registrado um fluxo de 92,7 mil passageiros entre embarques e desembarques, movimento 8,6% maior que o de abril.

No comparativo com maio do ano passado, porém, houve uma queda de 7,5%, já que naquele mês 100,2 mil passageiros passaram pelo Leite Lopes.

Já o transporte de cargas, incentivado pela Copa do Mundo, bateu recorde em maio. Passaram pelo aeroporto 82 toneladas, sendo que no mesmo mês de 2013 o número foi 11 toneladas (sete vezes menor). 
 
 
Fonte: Jornal A Cidade

Comentários

Mario I. disse…
Quando o Governo se torna participativo, todo mundo quer dar seu palpite. Se houvesse uma determinação vinda de cima tudo seria mais simples e o prejuízo deixaria de existir.
Seja o Governo Federal, Governo Estadual ou Municipal, seja o DAESP, a SAC, CETESB, DERSA ou Promotoria e o raio que o parta; sabem quando alguma coisa vai sair : NUNCA !!! VIVA O BRASIL !!!

Postagens mais visitadas